
O mercado de redes neutras de infraestrutura de telecomunicações e os seus desafios
A indústria de telecomunicações vem enfrentado o desafio de expandir sua rede de fibra para atender cada vez mais a necessidade dos consumidores de ter uma banda larga de alta capacidade e confiabilidade. Os altos custos associados a construção dessas novas redes são o principal obstáculo na expansão da capilaridade e o alcance para um maior mercado consumidor. Um caminho para vencer esse desafio é realizar uma reorganização estrutural na companhia, segregando as atividades de serviço, das atividades de infraestrutura. Essa nova organização estrutural se dá através do carve-out da infraestrutura de fibras em uma nova empresa, que tipicamente é uma equity joint venture com um investidor capitalizado, em que as empresas de telecomunicações podem focar no fornecimento do serviço e na experiência do cliente, enquanto a nova empresa fica dedicada ao atacado de fibra e foca na expansão da conectividade. Tipicamente essa nova empresa formada é uma companhia neutral host, um modelo de negócio dedicado ao atacado de infraestrutura de fibra, e que agrega a demanda de diversos provedores de serviços, permitindo a obtenção de ganho de escala da conectividade. O Carve-out: dividir para multiplicar valor Um carve-out é o processo de alienação de uma unidade de negócios na qual a empresa vende uma participação a investidores externos. A nova companhia resultante do carve-out será uma equity joint venture entre uma empresa de telecomunicações e investidores que serão sócios no negócio. É importante observar algumas particularidades do modelo proposto tanto na sua estrutura societária, como na sua atuação futura no mercado. O modelo proposto prevê que a alienação dos ativos de fibra dê origem a uma nova companhia neutral host focada em oferecer soluções de infraestrutura de fibra em atacado, chamada de “InfraCo.”. Ou seja, a “InfraCo.” vai oferecer os seus serviços de infraestrutura para diversas empresas e operadoras de telecomunicações de maneira isonômica, sem distinção ou tratamento preferencial entre seus clientes, inclusive para a empresa de telecomunicações que realizou o carve-out, chamada de “ServCo.”. O processo de carve-out pode ser complexo, mas a atenção a alguns detalhes pode minimizar os riscos e potencializar os ganhos: Delimitação clara dos ativos e atividades que ficarão com a “ServCo.” e com a “InfraCo.”; Separação dos sistemas de TI e planejamento de uma arquitetura de dados integrada entre as companhias separadas; Reorganização estrutural e redesenho de processos que segreguem atividades e integrem informações; Modelo de negócio que garanta a isonomia contratual e o tratamento neutro da “InfraCo.” perante todos os seus clientes, inclusive a “ServCo.”. A realidade europeia e as tendências no mundo A reorganização estrutural já é uma realidade no exterior, principalmente na Europa, e uma tendência no Brasil com a movimentação de grandes players. Na Europa já existem movimentos de segregação estrutural desde 2006, com a operação envolvendo a British Telecom e a Openreach. Na Oceania a operação mais antiga data de 2009, mostrando o amadurecimento do modelo na região. Na América Latina o movimento é mais recente, com operações no México em 2016 e anúncios importantes no Brasil em 2020. No Brasil, TIM, Oi e Vivo já anunciaram a intenção de segregar as suas atividades de serviço e infraestrutura. O mercado de telecomunicações, marcado pelo dinamismo e constante inovação, precisava de uma regulamentação à altura que acompanhasse a evolução das tecnologias e o surgimento de novos players. A crescente demanda por conectividade exigia o aumento das redes de capacidade muito alta (VHCN) e o desenvolvimento e rollout de novas tecnologias. A realidade europeia muito se deve aos incentivos regulatórios. O atual framework regulatório europeu vem sendo construído desde 2002 e atualizado ao longo dos anos com medidas de incentivo à digitalização da Europa e à competividade entre os principais players de telecomunicações. Em 2016, com o lançamento do programa Broadband Europe, que visa uma comunidade europeia digitalmente integrada em alta velocidade, começa-se a desenhar o que veio a ser o EECC. O EECC (2018) é a resposta à uma necessidade de revisão do framework legislativo para adequar a indústria europeia de telecomunicações à nova era digital e proporcionar um ambiente regulatório que favorecesse o crescimento e o fortalecimento da indústria. As empresas europeias têm até o final de 2020 para entrar em conformidade com o EECC. O EECC busca preparar a Europa para o futuro digital, promovendo o rollout de novas tecnologias e a inclusão dos cidadãos no processo de digitalização. Algumas das condições criadas são, por exemplo: Investimentos em novas redes com ênfase em redes full fibre, FTTx e 5G; Criação de incentivos por meio de obrigações regulamentares mais leves para co-investimentos e redes de atacado; Incentivo ao compartilhamento de infraestruturas visando a redução dos custos de rollout de redes; Defesa econômica da indústria visando a livre e justa concorrência dos players; Proteção de usuários finais no campo da legislação de telecomunicações. Assim, mesmo que indiretamente, o novo Código Europeu de Comunicações Eletrônicas (EECC) incentiva a indústria de atacado de fibra neutra na Europa. No Brasil, mesmo ainda sem incentivos regulatórios, o modelo de operações segregadas faz sentido devido às exigências do mercado, e traz diversas oportunidades para ambas as partes, mas é necessário mitigar alguns riscos: ServCo.: Oportunidades: Competir em mercados onde não possui infraestrutura própria; Acesso ao capital mais adequado aos ciclos de investimento; Só paga pela infraestrutura/capacidade que contratar; Maior foco gerencial nas ofertas e experiência do cliente. Riscos: Perda da infraestrutura e capilaridade enquanto diferencial competitivo, levando a competição para o nível das ofertas e experiência do cliente; Perda do poder de decisão da evolução da infraestrutura; Perda da verticalização entre serviços e infraestrutura; Possível falta de ownership dos problemas vividos pelos clientes. InfraCo.: Oportunidades: Acesso ao capital mais adequado aos ciclos de investimento; Maior foco gerencial em tecnologia e infraestrutura; Novas ofertas e modelos de negócio para diferentes setores e serviços de acordo com as demandas por infraestrutura; Maior adequação e capacidade de resposta às necessidades de infraestruturas com o rollout da tecnologia 5G; Possibilidade de um maior uso (e remuneração) da capacidade e infraestrutura por diferentes companhias. Riscos:








