O problema não é apenas a velocidade da melhoria. Os dados desde 2020 mostram que há uma mudança estrutural por trás da desaceleração.
Em 2024, o consumidor brasileiro médio ficou 10 horas e 16 minutos sem energia elétrica. O consumidor alemão médio ficou 11,7 minutos.
Não é erro de unidade. Um é o DEC apurado pela ANEEL. O outro é o SAIDI publicado pela Bundesnetzagentur. Mesma métrica, mesmo ano, fronteiras diferentes.
A matemática é simples e desconfortável.
Entre 2020 e 2024, o DEC brasileiro caiu em média 2,2% ao ano. Se mantivermos esse ritmo, o Brasil levaria mais de um século para chegar ao patamar alemão atual. Para fechar o gap em 20 anos, precisaríamos reduzir o DEC em 15% ao ano, sete vezes mais rápido.
O problema não está só na velocidade. Está em outro lugar.
O primeiro ato terminou em 2020
Entre 2015 e 2020, o DEC brasileiro caiu de 18,77h para 11,59h. Uma redução de 38% em cinco anos. Foi o período das melhorias estruturais básicas:
- Expansão de religadores automáticos
- Planos massivos de poda de vegetação
- Substituição de ativos envelhecidos
- Otimização de despacho de campo por pressão regulatória via DGC
Deu certo. Só que esse manual parece ter entregue o que tinha para entregar.
De 2020 a 2024, a curva achatou: o DEC saiu de 11,59h para 10,28h. Apenas 11% de redução em quatro anos. Um terço do ritmo anterior, mesmo com investimento crescente. Isso com um crescente expurgo de falhas como dias críticos (atualmente com limite mais amplo, de até 24 horas).
Não se parece tanto com fadiga de melhoria. Parece mais com um teto.
O que muda quando você cruza a fronteira
A comparação com a Europa não é injusta por diferença de tamanho ou clima. É reveladora por estrutura.
País Indicador 2024 Rede subterrânea Holanda 23,9 min ~100% Alemanha 11,7 min ~80% Brasil 614 min (10,28h) 0,5%
A Holanda opera com SAIDI 25 vezes menor que o Brasil. Não porque poda melhor. Talvez porque a rede está no subsolo?
A diferença estrutural vai além do cabo enterrado. Itália e Reino Unido operam sob modelos regulatórios totex (ROSS italiano, RIIO britânico), o regulador define metas de resultado e deixa a distribuidora escolher o mix de capex e opex para atingi-las. O incentivo muda de “quanto você investe” para “qual continuidade você entrega”.
O contraexemplo fica do outro lado do Atlântico. Os Estados Unidos, com cerca de 25% de rede subterrânea, reportaram SAIDI de 132 minutos em 2024, estável nos últimos anos. Porém, se considerarmos eventos climáticos extremos foram 663 minutos de interrupção que derrubaram uma rede majoritariamente aérea. A vulnerabilidade é real e mensurável. Porém hoje os EUA operam com um nível de disponibilidade diante dos eventos mais extremos (furacões, incêndios) no mesmo nível que é considerado normal no Brasil, acima dos 600 minutos. Já a confiabilidade nos EUA é cerca de 5x maior: SAIFI de 1,1 (1,15 com eventos extremos inclusos) contra 4,9 no Brasil.
O Brasil tem uma rede estruturalmente mais parecida com a americana do que com a europeia. E o clima está piorando.

O custo invisível: o que as compensações contam
Enquanto o DEC nacional melhora em câmera lenta, um outro número preocupa na outra ponta, mais específico e seletivo por circuito: as compensações pagas aos consumidores por violação de DIC e FIC.
Em 2025, uma da maiores distribuidoras pagou R$ 124,7 milhões em compensações, distribuídos entre mais de 250 conjuntos. Os 20 piores conjuntos concentraram cerca de R$ 40 milhões — um terço do total em menos de 8% da base.
Dois pontos importam aqui:
- O dinheiro tem geografia. A compensação não é difusa. Ela sai de áreas específicas, recorrentes, identificáveis. Um conjunto sozinho custou R$ 6,7 milhões em 2025.
- É um proxy de onde a rede dói. Onde o DIC/FIC individual estoura sistematicamente, está uma curva de investimento que não foi feita. Ou que foi feita no lugar errado.
Compensações são pagamento automático — vão para a fatura do consumidor em até dois meses, sem necessidade de reclamação. É um dos mecanismos mais rigorosos do mundo. Mas o pagamento não resolve o problema estrutural. Apenas o precifica. Já é um começo.
A trajetória que os dados sugerem e onde isso nos deixa
Três fatos da base ANEEL 2024 que merecem atenção no setor:
- DGC vs Compensações. O DGC das grandes concessionárias fechou 2025 com boa conformidade aos limites regulatórios, que estão bastante folgados em relação a grandes economias. Porém as compensações contam uma história diferente, que mostra um caminho viável para atacar as falhas e ganhar disponibilidade.
- A desaceleração é generalizada. Mesmo as distribuidoras de melhor desempenho estão apresentando ganhos marginais pequenos. O “teto” não é de uma empresa, pode ser do modelo.
- A vulnerabilidade climática vai chegar. Os EUA mostram o que acontece quando uma rede aérea encontra clima instável. O Brasil tem rede majoritariamente aérea e uma agenda climática que não vai parar de piorar os eventos extremos. O limite atual para eventos extremos, de 24 horas para restabelecimento deve ser refinado.
Os dados não sustentam a leitura otimista de que o Brasil está no caminho certo, só precisando de mais tempo. O ritmo de melhoria caiu pela metade. A fronteira internacional não se move na mesma velocidade — ela está 25 a 50 vezes à frente. E a próxima onda de pressão sobre o sistema (eletrificação da economia, eventos climáticos, expectativa do consumidor eletrificado, indústrias competitivas e data centers) não tem paciência para curva achatada.
A pergunta que fica não é se o Brasil vai melhorar. Vai.
A questão é se a melhoria dos próximos dez anos vai se parecer com a dos últimos quatro ou com a dos cinco anteriores.
Os números que temos hoje apontam para o caminho de menor esforço. Mas esse ritmo será compatível com uma infraestrutura competitiva regional ou mundialmente?
Os próximos anos mostrarão se o setor conseguirá romper esse aparente teto de desempenho ou se será necessário revisar os fundamentos que orientam a evolução da continuidade do fornecimento no Brasil.
Artigo de opinião de Ronye Mitchell, Gerente de Smart Operations em Energy da BIP Brasil
Dados: ANEEL (DEC/FEC Anual Estratificado 2015-2024), Bundesnetzagentur (SAIDI Strom 2024), EIA (Electric Power Annual 2024), CEER 7th Benchmarking Report, CEMIG-D (Compensações 2025).








